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La Leçon de Cinéma de Malcolm McDowell

Depois de Scorsese, Tarantino e os irmãos Dardennes, foi a vez de Malcolm McDowell, o icônico ator de Laranja Mecânica, se submeter ao exercício da tradicional « Leçon de Cinéma ».

Com muito humor e carisma, MacDowell revisitou vários episódios da sua carreira no cinema e no teatro, numa conversa com Michel Ciment, entrecortada por projeções de trechos de sua filmografia exaustiva (150 filmes, entre os quais “Figures in a Landscape” de Joseph Losey, “Oh, Lucky Man” de Lindsay Anderson, “Royal Flash” de Richard Lester e “Blue Thunder” de John Badham).

Quando Ciment lembrou que McDowell era nativo de Leeds na Inglaterra, ele reagiu: “Se você nasce num lugar como Leeds, você tem que virar ator pra poder sair daí.”

Dentro das suas influências, ele citou o ator James Cagney (“o melhor de todos”), e falou das suas experiências de trabalho com Laurence Olivier e Robert Shaw.

McDowell falou longamente do seu diretor favorito Lindsay Anderson (“um gênio”), que o dirigiu no seu primeiro papel em “If...” (1968), um filme que ele considera revolucionário por ter atacado o “establishment” e o sistema de educação britânico.

"Eu soube muitos anos depois pela esposa de Kubrick, Christiane, que foi assistindo a cena de “If...” em que estou raspando o bigode, que ele me escolheu para o papel em Laranja Mecânica. Depois de ver essa cena, ele se virou pra ela e falou : «  Acho que temos o nosso Alex ». “

A viúva de Kubrick, Christiane, e o irmão dela,  Jan Harlan (produtor de Kubrick) estavam presentes. 


 



Escrito por Emilie Lesclaux às 17h38
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Dardennes

Os Dardennes, aqui do lado de fora da sala de imprensa, minutos atras. 



Escrito por Emilie Lesclaux às 17h07
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Esse filme ainda vai dar muito o que falar - L'Artiste, de Michel Hazanavicius

 



Escrito por Emilie Lesclaux às 16h30
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Prêmios de Cannes 2011


"we did the best we could", disse Robert De Niro, presidente do juri, numa participação muito serena na coletiva de imprensa, e também na entrega dos prêmios, onde, usando um francês esforçado, chamou seus companheiros de champignons.

Camera D'Or - las Acacias, de Pablo Giorgelli
Prêmio do Júri - Polisse.
Roteiro - Footnote -
Prêmio de Atriz - Kirsten Dunst
Prêmio de Ator - Jean Dujardin, L'Artiste
Prêmio de Direçāo - Nicolas Winding Refn, Drive.
Grand Prix - Le Gamin au Velo e Once Upon a Time in Anatolia
Palma de Ouro - the Tree of Life

Eu gostei das escolhas desse júri. The Tree of Life, mesmo que nāo me agrade muito, é compreensível, um filme experimental de um autor conhecido. Respeitaram os Dardennes e Nuri Bilge Ceylan com um Grand Prix dividido. Reconheceram a energia de Nicolas Winding Refn com um prêmio de Direçāo muito bem dado por Drive. Reconheceram a força gigante do cinema de Lars Von Trier com um prêmio para Kirsten Dusnt, e a fala de Olivier Assayas na coletiva de imprensa logo após a cerimônia disse tudo: "para mim, pessoalmente, é um dos melhores filmes dele. Ninguém concordou com a coletiva de imprensa, mas isso não tira o fato de ser uma obra de arte de 1a. grandeza." Ainda reconheceram O Artista, filme que devera se tornar um grande destaque da temporada 2011/2012, inclusive rumo aos Oscars. K.M.F




Escrito por cinemascopio às 15h33
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Filmes Vistos

A menor sala de Cannes.

 

Lista de filmes vistos em Cannes 2011, incluem curtas da Semana da Crítica e Quinzena dos Realizadores. Com estrelinhas de * a *****.

1) MIDNIGHT IN PARIS, de Woody ALLEN ***
2) SLEEPING BEAUTY, de Julia LEIGH * 1/2 
3) WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN, de Lynne RAMSAY * 1/2
4) RESTLESS de Gus VAN SANT **
5) TRABALHAR CANSA, de Marco DUTRA, Juliana ROJAS *** 1/2
6) BÉ OMID É DIDAR, de Mohammad RASOULOF *** 1/2
7) HABEMUS PAPAM de Nanni MORETTI *** 1/2
8) LE GAMIN AU VÉLO, de Jean-Pierre et Luc DARDENNE ****
9) LES NEIGES DU KILIMANDJARO, de Robert GUEDIGUIAN *** 1/2
10) POLISSE, de MAÏWENN ** 1/2
11) MICHAEL, de Markus SCHLEINZER ** 1/2
12) THE ARTIST, de Michel HAZANAVICIUS **1/2
13) TAKE SHELTER, de Jeff Nichols  *** 1/2
14) THE TREE OF LIFE, de Terrence MALICK ** 1/2
15) MELANCHOLIA, de Lars VON TRIER ****
16) DRIVE, de Nicolas WINDING REFN *** 1/2
17) SNOWTOWN, de Justin Kurzel ***
18) EN VILLE, de Valérie Mréjen, Bertrand Schefer *** 1/2
19) HARA-KIRI: DEATH OF A SAMURAI de Takashi MIIKE ****
20) LA PIEL QUE HABITO, de Pedro ALMODÓVAR *** 1/2
21) LE HAVRE, de Aki KAURISMÄKI **** 1/2
22) PATER, de Alain CAVALIER ***
23) O ABISMO PATREADO ***
24) BONSÁI de Cristián JIMÉNEZ **
25) HORS SATAN de Bruno DUMONT *** 1/2
26) THE MURDERER (THE YELLOW SEA) de NA Hong-Jin *** 1/2
27) LOVERBOY, de Catalin MITULESCU ***
28) THE DAY HE ARRIVES de HONG Sangsoo *****
29) BIR ZAMANLAR ANADOLU'DA, de Nuri Bilge CEYLAN ****
30) LA SOURCE DES FEMMES, de Radu MIHAILEANU *
31) LES BIEN-AIMES, de Christophe HONORÉ ** 1/2
32) ELENA, de Andrey ZVYAGINTSEV ***
33) CIGARRETTE AT NIGHT, de Duane Hopkins ***
34) CSICSKA, de Attila Till **
35) DEMAIN, ÇA SERA BIEN, de Pauline Gay **
36) FOURPLAY: TAMPA, de Kyle Henry ****
37) KILLING THE CHICKENS TO SCARE THE MONKEYS, de Jens Assur **
38) LA CONDUITE DE LA RAISON, de Aliocha **
39) LAS PALMAS, de Johannes Nyholm ****
40) FINIS OPERIS (BUL-MYUL-UI-SA-NA-IE), de Moon Byoung-gon
41) IN FRONT OF THE HOUSE, de Lee Tae-ho (Corée du Sud)
42) PERMANÊNCIAS, de Ricardo Alves Júnior.
43) LA INVIOLABILIDAD DEL DOMICILIO, de Alex Piperno



Escrito por Emilie Lesclaux às 09h11
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Premiação de Un Certain Regard

Presidido por Emir Kusturika, o júri do Certain Regard deu ontem a noite o prêmio de melhor filme dividido entre o coreano Arirang (Kim Ki-Duk), que agradeceu cantando uma música do filme, e o alemão Halt Auf Freier Strecke de Andreas Drese. 

O prêmio especial do júri foi para Elena, do russo Andrey ZVYAGINTSEV (O Retorno) e o prêmio de melhor diretor foi entregue à esposa do iraniano Mohammad RASOULOF (Bé Omid é Didar), que não foi a Cannes por causa das restrições abordadas no próprio filme.

 

Elodie Bouchez, Peter Bradshaw, Emir Kusturika, Andrey Zvyqgintsev, Geoffrey Gilmore, Daniela Michel

 

 

 



Escrito por Emilie Lesclaux às 09h03
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Marco Dutra e Juliana Rojas falam sobre Trabalhar Cansa.

Registro de Marco e Juliana na Croisette, nas imediações do Palais des Festivals.Falam sobre Trabalhar Cansa e alguns dos filmes que viram em Cannes.



Escrito por Emilie Lesclaux às 08h37
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Bir Zamanlar Anadolu’da (competição)


Por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Eu acompanhava com interesse minguante os filmes do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan. Vi aqui em Cannes 2001 Distant, muito bom, depois fiquei em cima do muro com a belíssima afetação sobre um casal em crise, Climates (2005) e ele me perdeu de vez em 2007 com Três Macacos. Esse ano, no entanto, Ceylan veio para Cannes com um filme forte sobre um grupo de homens trabalhando. Bir Zamanlar Anadolu’da (Era uma Vez na Anatólia). Passou na competição.

Um pouco como Policia Adjetivo, filme de Corneliu Porumboiu, temos uma revisão a partir de uma outra cultura do que o cinema e a TV americanos nos dão semanalmente, nas telas grandes e pequenas: uma investigação policial.

A investigação aqui traz todas as peculiaridades que vêm com a mudança de cultura, língua e costumes. Não estamos na área dos procedimentos investigativos americanos que conhecemos tão bem, melhor, aliás, do que os procedimentos brasileiros de investigação.

É a força da indústria cultural americana, que atropela e passa por cima com a sua constância industrial. No caso de Ceylan, ele nos dá a sua própria leitura local.

Um grupo de homens da justiça turca vai a campo, acompanhados de dois suspeitos algemados, achar o corpo do homem que eles mataram. O cadáver estaria enterrado em algum lugar de um descampado.

 O clima de tensão constante vai sendo desconstruído por uma série de detalhes, alguns engraçados, que deixam bem claro que Bir Zamanlar Anadolu’da não irá nos informar sobre quem são os suspeitos, porque mataram, nem tampouco devemos esperar uma cena de julgamento. Isso não importa.

O que importa é o processo, a procura pelo corpo, a relutância deprimida dos suspeitos  em revelar o local, o fato de o promotor (Ceylan) estar tendo algum problema de próstata, a relação entre os homens, as pequenas incompetências do sistema, a falta de um carro (alguém esqueceu) para levar o corpo.

Cínicos poderão reclamar que trata-se da mais lenta investigação do cinema, algo que foi dito em 1999 quando passou em Cannes A Humanidade, de Bruno Dumont. 

De fato, o filme é longo, são 2h37. De qualquer forma, Ceylan, que tem talento impressionante para enquadrar e iluminar, parece apenas preocupado em fazer sua crônica muito bem observada, sobre um grupo de pessoas em viagem, lidando não apenas com a condição humana, mas também com as condições do tempo e da máquina de justiça.

Há uma divisão clara entre noite e dia nesse filme, e um desfecho bonito onde vemos a cara de uma mulher, presente para o reconhecimento do seu marido desaparecido.

É um dos filmes mais humanistas da seleção, um olhar generoso sobre esses homens, sem vilões, conflitos de autoridade policial ou reviravoltas.

Ceylan fez seu filme mais tranqüilo, sem os arroubos trabalhosos de assinatura que maracarm seus últimos dois filmes.

Filme visto na Debussy, Cannes, Maio 2011



Escrito por cinemascopio às 07h56
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Notas


Por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Clima de fim de feira em Cannes, e a primeira prova disso é a quantidade louca de gente dormindo nos últimos filmes. Cansaço absoluto batendo, no meu caso dormindo em média quatro horas por noite, levantando às 7 da manhã, indo dormir às três ou quatro, jantares e festas que se estendem. E, claro, a certeza de que eu sou o único critico dos alguns milhares de profissionais credenciados que não dormiu em nenhuma sessão...

????? - Curiosidade dessa edição de Cannes é que ninguém tem a menor idéia de quem seria a Palma de Ouro. Terrence Malick pelo conjunto da obra, através de The Tree of Life? Kaurismaki por ser um autor tão peculiar e por ter nos dado Le Havre? Lars Von Trier depois de dar um tiro de 12 nos dois pés, logo apos a exibição de Melancholia, filme muito bem recebido? Drive, o noir surpresa americano, filmado por um realizador europeu? O estranho novo filme de Almodóvar, cuja Palma parece estar sempre fugindo dele?

Joje de manhã passou La Source de Femmes, de Radu Mihaileanu, um titulo muito ruim que foi vaiado e aplaudido em medidas iguais. A seleção do filme em Cannes talvez faça sentido como forma de assinalar as mudanças políticas no mundo árabe, pois narra a história de mulheres numa pequena vila na geografia do Oriente Médio que rebelam-se contra uma antiga tradição local: são elas quem vão buscar água numa fonte, enquanto os homens ficam bebendo chá e fumando o dia inteiro. Simplório, careta e cinema exótico.

KUBRICK – Cannes viu a comemoração dos 40 anos de Laranja Mecânica com a exibição especial da nova copia remasterizada do filme (agora em 4K), aula de cinema com Malcolm Macdowell e mais um lançamento em bluray na França do mesmo filme. Aliás, a Warner não brinca em serviço e vê Kubrick como boa fonte de renda para o presente e o futuro do seu catalogo.

Na quarta-feira, saiu pela primeira vez no formato de disco de alta definição Barry Lyndon (1976), um dos Kubricks mais fortes, na minha opinião. O filme pode ser comprado na França por módicos 15€, ou como parte de uma caixa completa com nove filmes, todos em Bluray, por 99€.



Escrito por cinemascopio às 13h38
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Para meus amigos Rubro Negros

Fracassado ao tentar conquistar o Hexa, que continua sendo luxo só do Náutico, o mascote fantasia do Sport Club do Recife foi visto melancólico num cinema de Cannes, na única sessão vazia de todo o festival.



Escrito por cinemascopio às 12h45
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Drive (competição)

Por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Na primeira hora do super bom noir de Los Angeles, Drive (competição), dirigido com tesão gigante pelo dinamarquês Nicolas Refn,eu achei que estava vendo algo tão empolgante, bem feito e articulado como Pulp Fiction. Minha dúvida era em que ponto da sessão o filme começaria a perder a qualidade que foi mantida durante um tempo incomum. De fato, o último terço perde bastante em relação ao que estávamos sentindo antes, mas, mesmo assim, Drive é uma das belas surpresas do festival esse ano. A platéia de mais de mil críticos explodiu em aplausos durante duas seqüências de enorme precisão e impacto.

Refn, um estrangeiro, parece estar se lambuzando com as muitas peças do cinema americano. Tem aquele fascínio claro que o jovem Wim Wenders dos anos 70 já teve pelas ruas, carros e enquadramentos americanos, muito embora as reais influências desse filme de ação de autor sejam os thrillers motorizados dos anos 70 e 80. De Walter Hill e William Friedkin, de The Driver (1978), The Hunter (1980, com Steve McQueen, filme de Buzz Kulik) e Viver e Morrer em Los Angeles (1986).

Ryan Gosling, num desses papeis que parecem vir embrulhados em papel de presente, é uma dessas criaturas americanas por excelência, e que só parecem existir no mundo dos filmes. Ama carros e os dirige como ninguém. De dia, ele faz bicos como dublê em produções hollywoodianas, filmadas na esquina dele. De noite, faz outros bicos, como o meio de transporte para ladrões que precisam deixar a cena de um crime e chegar à segurança.

Esse personagem principal parece filho dos muitos homens lacônicos que Clint Eastwood ou Steve McQueen fizeram na grande década do cinema americano, ou talvez seja sobrinho do Snake Plisken de John Carpenter. Caladão e macambuso, mas há um coração que bate pelos justos nessa vida, o melhor dispositivo para que ele se envolva num conflito maior que irá agitar o filme.

A seqüência de abertura já daria ao filme um bom valor no mercado da cinefilia. Ele precisa transportar dois ladrões em fuga. É de noite. As regras são simples. Eles tem cinco minutos para entrar, roubar e sair. Depois disso, serão deixados para trás.

Contrariando expectativas, não temos uma seqüência de velocidade e perseguição, mas de manobras calmas de um motorista extraordinário que escuta a freqüência da policia para decidir o que fazer. Isso inclui estacionar o carro friamente numa rua tranqüila e desligar as luzes para não chamar qualquer atenção num momento chave.

Entra no filme outro elemento clássico, um interesse amoroso, Carey Mulligan, sua vizinha, mãe de um garoto e esposa de um homem que está prestes a voltar da prisão.

Refn e o roteirista Hossein Amini utilizam muito bem o confronto de brutalidade e delicadeza, revelando aos poucos que nosso herói está mais para anjo (da morte) do que um homem comum. Ele irá tentar ajudar a família e o personagem interessantemente dúbio do marido, mesmo estando apaixonado pela jovem mãe.

As coisas dão muito errado no esquema que envolve a máfia, e Hefn, que escondera o jogo até mais ou menos 45 minutos, abre sua caixa de ferramentas. Começa um maravilhoso banho de sangue cinematográfico que nos lembra que, pelo menos no cinema, a violência é extremamente fotogênica e catártica. Desde A History of Violence, do Cronenberg, que inclusive passou na mesma sala – a Debussy – em Cannes, que um tiro bem dado de 12 não pegava tão bem em imagem e som...

Refn tem estilo, quem já viu seus famosos e cultuados (nunca lançados no Brasil) Pusher e Bleeder, fimados na Dinamarca, já suspeitava que o rapaz poderia conquistar espaço. Eu o entrevistei em 2000 no Festival Internacional de Brasília. Ainda era um realizador verde, mas os filmes tinham força.

Ele usa música com a textura dos anos 80, sintetizadores e vocais enterrados em alguma fumaça. Taí um diretor que não tem medo de sonorizar seu filme com musica, e os resultados são, geralmente, muito bons, às vezes talvez caindo no território do Michael Mann, especialmente na sua fase Miami Vice (na TV), cujos créditos cor de rosa-neon de Drive lembram muito.

Uma seqüência em especial, nos bastidores de um prostíbulo, rende um plano que é uma das mais fortes imagebns de Cannes até agora, um ninho de putas chapadas, nuas, com plumas e paetês, enquanto um homem é martelado impiedosamente. Ele, aliás, merece as marteladas.

Cannes tem esse amor pelo cinema que muitas vezes traduz-se no interesse em programar espécimes de gênero que, em algum outro festival mais pobre de espírito, seria descartardo como “lixo”. Drive é muito feliz como exercício de remixagem dos grandes filmes com carros americanos tomando a tela retangular e larga do cinema feito nos EUA.

Lembra também que “filme estiloso” é feito por gente sem talento, mas que filmes com estilo só existem por causa de cineastas que tem tesão, e talento.

Filme visto no Debussy, Cannes, 19 Maio 2011



Escrito por cinemascopio às 13h41
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Entrevista com Karim Ainouz (O Abismo Prateado)



Escrito por Emilie Lesclaux às 10h38
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O Abismo Prateado (Quinzena)


Por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O Abismo Prateado
(Quinzena dos Realizadores), quarto longa metragem de Karim Ainouz, me pareceu a confirmação de uma marca autoral que vem sendo desenvolvida a cada filme. Depois de exigir respeito político (sexual, amoroso, racial, social) em Madame Satã (um dos meus filmes brasileiros preferidos), Karim partiu para o que podemos romanticamente chamar de uma “trilogia dos corações partidos”. Esse seu novo filme parece encerrar isso depois de O Céu de Suely e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, esse co-dirigido por Marcelo Gomes. Me deixa curioso imaginar o que virá do próximo, Praia do Futuro.

O realizador é um romântico, podre de, aliás. Sua queda pela música pop instiga uma sensação musical definidora de um estado de espírito, um pouco como um radinho de pilha que manda sua mensagem ali no canto, pronta para alguém, no clima emocional certo, captar. “Eita, aquela música...”. Lembranças de cada um fazem o resto.

A pop music nos seus filmes é popularzona, às vezes brega, sempre um standard reconhecível. Talvez venha do fato de suas três últimas histórias falarem de sensações corriqueiras e normais, como ser abandonado no campo amoroso, entender isso e recomeçar.

O filme é leve, mas consistente, e me manteve mais atento com o simples prazer de vê-lo do que quase a totalidade da produção brasileira vista recentemente, entre filmes de mercado e pequeno-autorais.

Uma dentista branca (Alessandra Negrini, outra vez interessada nas alianças com o cinema), classe media alta e moradora de Copacabana, é casada e tem um filho adolescente. O marido viaja e deixa uma mensagem no celular, anunciando que estará se separando dela.

Ele insinua que irá até a Patagônia tentar se encontrar, talvez uma nota errada no tipo de romantismo defendido pelo filme. Ir à Patagônia se encontrar não é bom, soa como poesia latina ruim, não importa o tipo de romantismo que defendes. De qualquer forma, Ainouz usa Maniac, de Michael Sambello (trilha sonora de Flashdance) com grande efeito, funciona. A música, sobre uma mulher que se liberta num dancing, traduz bem o aspecto feminino de todos os filmes de Ainouz.

A mulher, atordoada, corre para o aeroporto, mas não consegue embarcar para ir atrás do marido. Vaga pelo Rio de Janeiro, filmado em tela larga por Mauro Pinheiro Jr, um Rio perfeitamente realista, mas com tintas inegavelmente românticas.

Uma das imagens de Copacabana traz uma definição visual do estado de espírito da cidade: um homem de sunga de banho, vindo da praia, andando pelos carros e atravessando avenidas. Muito bom.

O Abismo Prateado (um título espetacularmente gay não apenas no significado, mas no design de título que explode na tela em purpurina) tem uma grande seqüência na segunda ida ao aeroporto Santos Dumont, de madrugada. Esse três ou quatro minutos são importantes para entender os interesses desse cineasta.

No aeroporto vazio, a mulher perambula com dois novos amigos, um pai e sua filha pequena, também fujões de problemas amorosos, e inicialmente fujões do que mais parece algum outro filme e roteiro. De qualquer forma, eles se alojam no filme. O mural do aeroporto, com toda a iconografia de aviões e céus, mostra uma ilustração perfeita da idéia de viajar. É uma grande seqüência de cinema, sobre um estado de espírito dos que não estão nem aqui, nem lá.

O Abismo Prateado foi feito, pelo que eu entendi, como uma espécie de encomenda. A idéia seria dramatizar de alguma forma Olho nos Olhos (1976), canção de Chico Buarque.

O teor geral do filme talvez sugira isso, mas o resultado como cinema realmente não parece. Em alguns momentos, lembra uma versão melhorada de O Primeiro Dia, de Walter Salles e Daniela Thomas (a cidade, a mulher instável, os encontros, telefones). No todo, é um filme de Karim Ainouz que traz sensações boas. 

Filme visto no Palais Croisette, Cannes 2011.



Escrito por cinemascopio às 13h16
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Spoilers de Cannes

Estava tentando escrever um parágrafo no texto do La Piel Que Habito, de Pedro Almodóvar, e me bateu a preocupação constante de, ao escrever aqui de Cannes, poupar quem lê dos detalhes mórbidos que estragam surpresas boas em filmes que só serão vistos daqui a dois, quatro, seis meses ou um ano.

Eu acho perfeitamente possível discutir um filme num texto crítico sem que idéias importantes (não apenas "viradas" narrativas, idéias mesmo) sejam reveladas fora da tela. Discutir uma boa idéia a partir do seu efeito e da sua construção, mas sem necessariamente detalhá-la peça por peça,  me parece mais importante do que apresentar tudo pronto. Na melhor das hipóteses, gera um desejo de ver o filme, de entrar no filme, descobri-lo pela primeira vez a partir de uma outra primeira impressão tida em Cannes por terceiros. Infelizmente, isso não acontece sempre.

O primeiro filme que me lembrou essa questão esse ano foi o Midnight in Paris, de Woody Allen, já fartamente revelado na sua maior surpresa, e que a própria divulgação do filme fez de tudo para esconder (da sinopse à lista de personagens). Hoje, o novo Almodóvar irá beneficiar-se em muito se a crítica usar o mínimo de bom senso. No final das contas, todo filme é um segredo, especialmente os que são bons. K.M.F



Escrito por cinemascopio às 11h08
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La Piel Que Habito (competição)


Por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Eu saí de La Piel Que Habito, o novo Almodóvar, coçando a cabeça. Parece que há algo que não deu muito certo no filme, como se não tivesse mola ou suspensão. Almodóvar sempre foi muito bom em narrar histórias absurdas e injetar seu talento de humor e emotividade para entortar seus absurdos delirantes. Nesse filme novo, tudo parece feito com a cara dura, como se o tom estivesse errado, ou como se Maus Hábitos fosse narrado com a câmera e a cara fechada de A Má Educação.

Dito isso, o filme é uma estranha loucura, derrapando controladamente rumo a uma farsa de ... ermm... ficção científica. Antonio Banderas é o macho alpha- latino-master-diamond, mas a platéia não ri pois não parece existir espaço para isso.

Ele é um cirurgião plástico e sua fala científica numa rápida cena de congresso internacional soa como o texto datilografado por um estagiário, num filme B. A fotografia mantém a mesma classe de sempre, com uma certa sofisticação almodovariana. O filme, aliás, é o primeiro Almodóvar com tela padrão 1.85 em pelo menos 14 anos, período que viu sua adoção do Scope 2.35.  

Banderas é um doutor de transplantes de pele e de rostos. Tem origem brasileira, e um irmão brasileiro barra pesada (engraçado no quão grotesco ele é) apelidado de “o tigre”. É ver para crer essa criatura em ação, especialmente na cama.

O filme desdobra-se com um clima inusitado (especialmente no universo almodovariano) de cientista louco, em relação explícita com pelo menos um outro filme presente na competição, esse ano, o austríaco Michael.

Esse desdobramento nos revela que alguém é mantido(a) preso(a), num cárcere secreto, objeto sexual absurdo, e fruto de uma situação mais absurda ainda relacionada ao passado.

Uma das chaves dessa enorme confusão é uma garotinha brasileira. Uma outra chave é a tara, um dos melhores pontos do filme, uma vez que é o tesão demente que faz a coisa toda andar, mesmo que o tom pareça estar errado.

Pedro Almodóvar nunca foi diretor de se esforçar muito para trazer a platéia às suas transgressões deliciosas (freiras com LSD em Maus Hábitos, travesti pai em Tudo Sobre Minha Mãe, estupro de amor em cama de hospital em Fale Com Ela, etc).

Na sessão hoje de La Piel Que Habito, o clima na sala de fãs, em grande parte, já convertidos, era de uma certa tensão. Todos nós aguardando o filme engrenar, o que talvez só ocorra realmente na última parte, quando o absurdo desse trans-sci-fi-tesudo fica totalmente esclarecido, mesmo que o tom permaneça duro e distante do escracho direto.

Banderas não trabalhava com Almodóvar desde Ata-Me, há exatamente 20 anos, e não tenho muita certeza de que a experiência de voltar tenha sido feliz. Cenas de sexo no novo filme parecem meio de madeira, e alguns colegas defendem que “é proposital”. Não lembro de Almodóvar, em nenhum dos seus filmes, filmar mal e preguiçosamente pelo seu simples querer.

De qualquer forma, La Piel que Habito é uma verdadeira curiosidade na carreira de Almodóvar, um pouco como se ele quisesse voltar à sua fase inicial, mas sem a mesma energia e bom humor carnívoro de antes. Alberto Inglesias, compositor da trilha sonora, parece ter sido informado por email que o filme seria apenas um thriller classe A, outro curioso descompasso. Deve ter levado um susto ao ver e sentir o filme. 

Filme visto na Lumiere, Cannes, 19 de Maio 2011



Escrito por cinemascopio às 10h54
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