Depois de Scorsese, Tarantino e os irmãos Dardennes, foi a vez de Malcolm McDowell, o icônico ator de Laranja Mecânica, se submeter ao exercício da tradicional « Leçon de Cinéma ».
Com muito humor e carisma, MacDowell revisitou vários episódios da sua carreira no cinema e no teatro, numa conversa com Michel Ciment, entrecortada por projeções de trechos de sua filmografia exaustiva (150 filmes, entre os quais “Figures in a Landscape” de Joseph Losey, “Oh, Lucky Man” de Lindsay Anderson, “Royal Flash” de Richard Lester e “Blue Thunder” de John Badham).
Quando Ciment lembrou que McDowell era nativo de Leeds na Inglaterra, ele reagiu: “Se você nasce num lugar como Leeds, você tem que virar ator pra poder sair daí.”
Dentro das suas influências, ele citou o ator James Cagney (“o melhor de todos”), e falou das suas experiências de trabalho com Laurence Olivier e Robert Shaw.
McDowell falou longamente do seu diretor favorito Lindsay Anderson (“um gênio”), que o dirigiu no seu primeiro papel em “If...” (1968), um filme que ele considera revolucionário por ter atacado o “establishment” e o sistema de educação britânico.
"Eu soube muitos anos depois pela esposa de Kubrick, Christiane, que foi assistindo a cena de “If...” em que estou raspando o bigode, que ele me escolheu para o papel em Laranja Mecânica. Depois de ver essa cena, ele se virou pra ela e falou : « Acho que temos o nosso Alex ». “
A viúva de Kubrick, Christiane, e o irmão dela, Jan Harlan (produtor de Kubrick) estavam presentes.
"we did the best we could", disse Robert De Niro, presidente do juri, numa participação muito serena na coletiva de imprensa, e também na entrega dos prêmios, onde, usando um francês esforçado, chamou seus companheiros de champignons.
Camera D'Or - las Acacias, de Pablo Giorgelli Prêmio do Júri - Polisse. Roteiro - Footnote - Prêmio de Atriz - Kirsten Dunst Prêmio de Ator - Jean Dujardin, L'Artiste Prêmio de Direçāo - Nicolas Winding Refn, Drive. Grand Prix - Le Gamin au Velo e Once Upon a Time in Anatolia Palma de Ouro - the Tree of Life
Eu gostei das escolhas desse júri. The Tree of Life, mesmo que nāo me agrade muito, é compreensível, um filme experimental de um autor conhecido. Respeitaram os Dardennes e Nuri Bilge Ceylan com um Grand Prix dividido. Reconheceram a energia de Nicolas Winding Refn com um prêmio de Direçāo muito bem dado por Drive. Reconheceram a força gigante do cinema de Lars Von Trier com um prêmio para Kirsten Dusnt, e a fala de Olivier Assayas na coletiva de imprensa logo após a cerimônia disse tudo: "para mim, pessoalmente, é um dos melhores filmes dele. Ninguém concordou com a coletiva de imprensa, mas isso não tira o fato de ser uma obra de arte de 1a. grandeza." Ainda reconheceram O Artista, filme que devera se tornar um grande destaque da temporada 2011/2012, inclusive rumo aos Oscars. K.M.F
Lista de filmes vistos em Cannes 2011, incluem curtas da Semana da Crítica e Quinzena dos Realizadores. Com estrelinhas de * a *****.
1) MIDNIGHT IN PARIS, de Woody ALLEN *** 2) SLEEPING BEAUTY, de Julia LEIGH * 1/2 3) WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN, de Lynne RAMSAY * 1/2 4) RESTLESS de Gus VAN SANT ** 5) TRABALHAR CANSA, de Marco DUTRA, Juliana ROJAS *** 1/2 6) BÉ OMID É DIDAR, de Mohammad RASOULOF *** 1/2 7) HABEMUS PAPAM de Nanni MORETTI *** 1/2 8) LE GAMIN AU VÉLO, de Jean-Pierre et Luc DARDENNE **** 9) LES NEIGES DU KILIMANDJARO, de Robert GUEDIGUIAN *** 1/2 10) POLISSE, de MAÏWENN ** 1/2 11) MICHAEL, de Markus SCHLEINZER ** 1/2 12) THE ARTIST, de Michel HAZANAVICIUS **1/2 13) TAKE SHELTER, de Jeff Nichols *** 1/2 14) THE TREE OF LIFE, de Terrence MALICK ** 1/2 15) MELANCHOLIA, de Lars VON TRIER **** 16) DRIVE, de Nicolas WINDING REFN *** 1/2 17) SNOWTOWN, de Justin Kurzel *** 18) EN VILLE, de Valérie Mréjen, Bertrand Schefer *** 1/2 19) HARA-KIRI: DEATH OF A SAMURAI de Takashi MIIKE **** 20) LA PIEL QUE HABITO, de Pedro ALMODÓVAR *** 1/2 21) LE HAVRE, de Aki KAURISMÄKI **** 1/2 22) PATER, de Alain CAVALIER *** 23) O ABISMO PATREADO *** 24) BONSÁI de Cristián JIMÉNEZ ** 25) HORS SATAN de Bruno DUMONT *** 1/2 26) THE MURDERER (THE YELLOW SEA) de NA Hong-Jin *** 1/2 27) LOVERBOY, de Catalin MITULESCU *** 28) THE DAY HE ARRIVES de HONG Sangsoo ***** 29) BIR ZAMANLAR ANADOLU'DA, de Nuri Bilge CEYLAN **** 30) LA SOURCE DES FEMMES, de Radu MIHAILEANU * 31) LES BIEN-AIMES, de Christophe HONORÉ ** 1/2 32) ELENA, de Andrey ZVYAGINTSEV *** 33) CIGARRETTE AT NIGHT, de Duane Hopkins *** 34) CSICSKA, de Attila Till ** 35) DEMAIN, ÇA SERA BIEN, de Pauline Gay ** 36) FOURPLAY: TAMPA, de Kyle Henry **** 37) KILLING THE CHICKENS TO SCARE THE MONKEYS, de Jens Assur ** 38) LA CONDUITE DE LA RAISON, de Aliocha ** 39) LAS PALMAS, de Johannes Nyholm **** 40) FINIS OPERIS (BUL-MYUL-UI-SA-NA-IE), de Moon Byoung-gon 41) IN FRONT OF THE HOUSE, de Lee Tae-ho (Corée du Sud) 42) PERMANÊNCIAS, de Ricardo Alves Júnior. 43) LA INVIOLABILIDAD DEL DOMICILIO, de Alex Piperno
Presidido por Emir Kusturika, o júri do Certain Regard deu ontem a noite o prêmio de melhor filme dividido entre o coreano Arirang (Kim Ki-Duk), que agradeceu cantando uma música do filme, e o alemão Halt Auf Freier Strecke de Andreas Drese.
O prêmio especial do júri foi para Elena, do russo Andrey ZVYAGINTSEV (O Retorno) e o prêmio de melhor diretor foi entregue à esposa do iraniano Mohammad RASOULOF (Bé Omid é Didar), que não foi a Cannes por causa das restrições abordadas no próprio filme.
Elodie Bouchez, Peter Bradshaw, Emir Kusturika, Andrey Zvyqgintsev,Geoffrey Gilmore, Daniela Michel
Eu acompanhava com interesse minguante os filmes do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan. Vi aqui em Cannes 2001 Distant, muito bom, depois fiquei em cima do muro com a belíssima afetação sobre um casal em crise, Climates (2005) e ele me perdeu de vez em 2007 com Três Macacos. Esse ano, no entanto, Ceylan veio para Cannes com um filme forte sobre um grupo de homens trabalhando. Bir Zamanlar Anadolu’da (Era uma Vez na Anatólia). Passou na competição.
Um pouco como Policia Adjetivo, filme de Corneliu Porumboiu, temos uma revisão a partir de uma outra cultura do que o cinema e a TV americanos nos dão semanalmente, nas telas grandes e pequenas: uma investigação policial.
A investigação aqui traz todas as peculiaridades que vêm com a mudança de cultura, língua e costumes. Não estamos na área dos procedimentos investigativos americanos que conhecemos tão bem, melhor, aliás, do que os procedimentos brasileiros de investigação.
É a força da indústria cultural americana, que atropela e passa por cima com a sua constância industrial. No caso de Ceylan, ele nos dá a sua própria leitura local.
Um grupo de homens da justiça turca vai a campo, acompanhados de dois suspeitos algemados, achar o corpo do homem que eles mataram. O cadáver estaria enterrado em algum lugar de um descampado.
O clima de tensão constante vai sendo desconstruído por uma série de detalhes, alguns engraçados, que deixam bem claro que Bir Zamanlar Anadolu’da não irá nos informar sobre quem são os suspeitos, porque mataram, nem tampouco devemos esperar uma cena de julgamento. Isso não importa.
O que importa é o processo, a procura pelo corpo, a relutância deprimida dos suspeitos em revelar o local, o fato de o promotor (Ceylan) estar tendo algum problema de próstata, a relação entre os homens, as pequenas incompetências do sistema, a falta de um carro (alguém esqueceu) para levar o corpo.
Cínicos poderão reclamar que trata-se da mais lenta investigação do cinema, algo que foi dito em 1999 quando passou em Cannes A Humanidade, de Bruno Dumont.
De fato, o filme é longo, são 2h37. De qualquer forma, Ceylan, que tem talento impressionante para enquadrar e iluminar, parece apenas preocupado em fazer sua crônica muito bem observada, sobre um grupo de pessoas em viagem, lidando não apenas com a condição humana, mas também com as condições do tempo e da máquina de justiça.
Há uma divisão clara entre noite e dia nesse filme, e um desfecho bonito onde vemos a cara de uma mulher, presente para o reconhecimento do seu marido desaparecido.
É um dos filmes mais humanistas da seleção, um olhar generoso sobre esses homens, sem vilões, conflitos de autoridade policial ou reviravoltas.
Ceylan fez seu filme mais tranqüilo, sem os arroubos trabalhosos de assinatura que maracarm seus últimos dois filmes.